Homens, homens, homens. Tão previsíveis. Até o que se acha mais esperto uma hora sempre acaba se enrolando. Até um psicopata, por exemplo, é passível de alguns deslizes. Basta encontrar alguém com uma lábia mais apurada que a sua. Não que eu tenha contato diário com algum para chegar a tal conclusão, mas é que uma amiga me lembrou de uma experiência passada que tive com um, e fiquei com vontade de contar! Então vamos à história!
Tudo aconteceu numa madrugada de um dia de semana qualquer, em 2004. Como todas as noites, eu desci do ônibus da faculdade, passado da meia noite, e me dirigi despreocupadamente à minha casa, há três quadras de onde eu desembarcava. Logo que cheguei à esquina, avistei um rapaz sentado na sarjeta, bem arrumado, com uma cara de vigia. Tava frio, eu estava cansada, não tive vontade e nem perspicácia para desconfiar de alguma coisa. Segui andando, normalmente.
Logo que passei por trás dele, senti uma mão pegar a minha perna. Minha reação foi imediata, resmunguei e puxei a perna pro lado. Para minha surpresa, o rapaz levantou com tudo e encostou uma arma na minha cabeça, falando baixo no meu ouvido: “não grita que não vou te fazer nada”. Instintivamente, me calei. Sentei ao lado dele, como havia me pedido. Respondi cada pergunta, sem pensar, verdadeiramente. Entre elas, meu nome, o que eu fazia, onde eu estudava.
Não sei porque, e nem como, não senti nada. Só pensava em como eu iria me livrar daquela situação, olhando pro portão da minha casa, a poucos passos de onde eu estava. Foi então que ele me impôs: “levanta e caminha comigo, fingindo ser minha namorada”. Nesse momento, me abraçando, colocou a arma na minha cintura. Aproveitei e dei uma analisada no sujeito, pelo canto dos olhos. Cabelo cortado rente, máquina dois. Olhos meio puxados, boca fina, pele clara, estatura mediana. Corpo nem magro, nem gordo.
Após breve análise, num devaneio de descontração, cheguei a pensar: “era só pedir com jeitinho!” Não tive vontade de rir, mas também, nenhuma de chorar. Era como se fosse uma brincadeira, sei lá, fiquei meio inerte, se é possível alguém ficar assim numa situação destas. Com medo de que ele pensasse que eu estava gostando, forcei um choro, e em súplica pedi que me deixasse ir. Não surtiu efeito.
Enquanto isso seguíamos os dois, caminhando pela rua cada vez mais escura, sem rumo. Fingindo sentir algo que eu não sentia, pedi novamente que me largasse. Sem dar ouvidos, ele me levou para baixo de uma grande árvore, num breu total. Assim que paramos, ele me agarrou e me beijou. Por instinto, fechei meus lábios, e comecei a chorar. Pensava, a todo momento: “será que vou ter que tirar a roupa nesse frio?” Parece cômico, mas era sério, tava frio demais.
Foi então que tive uma idéia! Vamos dialogar, afinal, era uma futura comunicóloga, não era? E nesse momento, ao sentir meu desespero, ele me disse: “não precisa ficar com medo, não vou te fazer mal”. E essa foi a deixa. “Então me deixa ir embora. Tô cansada. Trabalhei o dia todo com esse salto, tive uma aula mega chata, tô fedendo até, tomei banho às 7 da manhã. Vamos nos ver amanhã”, falei, em súplica. Com uma cara de quem não tava entendendo nada, ele continuo mudo.
Aproveitei o silêncio pra continuar. “Amanhã, nesse mesmo horário, você me espera ali na esquina, e a gente sai. Vamos dar uma volta, namorar. Vou estar cheirosa, descansada, será bem melhor. Pode ficar sossegado que não vou contar pra ninguém. Só eu e você”, disse, com uma cara de cão abandonado, com um quase sorriso sedutor, se é que é isso é possível de imaginar! Então me olhando, ele pegou minha mão e perguntou: “promete então que amanhã a gente sai?” E, numa mescla de vitória e alívio soltei logo: “claro que sim, amanhã, sem falta”.
Ironicamente, ele pegou na minha mão e me levou até o portão da minha casa, como se estivesse tentando me proteger de algum psicopata. Achei estranho, mas, como diz a minha mãe “com louco não se discute”. Assim que entrei em casa, a ficha caiu, e todo choro que havia forçado até então, rolou solto. Após explicações, indignações, e tantos outros acontecimentos dentro de casa, a polícia chegou a minha porta.
“Então não aconteceu nada de fato?”, me perguntou o policial, após eu terminar de contar a história. Com uma raiva no olhar, me segurei pra não dizer “não, tirando o fato que estou acostumada a andar abraçada e ser beijada a força por um louco com um revólver apontado pra minha cintura”, mas apenas fiz que não com a cabeça. “Só me responda uma coisa, ele estava com um revólver ou uma pistola?”, perguntou ele, ainda. Nesse momento não me contive e respondi: "olha, não sei, mas na próxima vez perguntarei". Quem, em sã consciência, vai reparar nisto?
Por último o cara me indagou: “qual a cor da arma, e você tem certeza que era de verdade ou era de brinquedo?” Sim, meus caros, ele me perguntou isto. Sem pensar, eu disse: “era gelada”. Bom, até hoje não vi uma arma de brinquedo gelada como ferro. Vai saber também. Enfim, como não fui estuprada, nada foi feito. No dia seguinte, no mesmo horário, um carro de polícia, discretíssimo, com um mega giroflex aceso, ficou a espera do meu admirador. Não é preciso dizer que ele não apareceu.
Enfim, moral da história: 1º - tentativa de estupro não configura crime! Problema seu se o cara te agarrou, te beijou a força, te coagiu com uma arma! Se não houve sexo, não é crime! Então, nem perca seu tempo chamando a polícia! Se vira, minha nega! Pra que algo seja feito (ou não, como ocorre na maioria das vezes), é preciso que você tenha sido violentada fisicamente (seu psicológico não vale de nada). Se o cara for gatinho, a dica é aproveitar! Quem sabe não rola uma experiência legal, no fim?
2º - Mas, se ainda assim, você quiser chamar a polícia para contar sua história, lembre-se: observe atentamente a arma! Veja se é um revólver ou uma pistola, isto irá fazer muita diferença na hora de descrever a situação a equipe policial! “Ah, então se foi uma pistola o cara era deveras violento, estava mais preparado, pensou estrategicamente, pois se fosse um revólver, ele seria um pouco mais desatualizado, ameno, diria até legal”, imagino o policial explicando o que não tem explicação, a meu ver.
3º - Além de observar se era um revólver ou uma pistola, não se esqueça de reparar na cor da arma, caso você não saiba distinguir um de outro. Lembre-se de analisar se o cabo é cromado, a marca, o calibre. Isto é muito importante! Se a arma estiver apontada para uma região longe de sua área de visão, não se acanhe, pergunte: “é, por favor, uma dúvida, isto é uma pistola ou um revólver? Que cor? Pode me dizer a marca? Onde pretende atirar, se for o caso?” Não se assuste se não houver resposta!
4º - Não entre em pânico! Invista em seu lado sedutor e tente mostrar ao “psyco”, que às vezes, pedindo com jeitinho é mais gostoso! Use a sua lábia! Prove seu poder de persuasão! Não discorde! Concorde e dê alternativas! “Olha só. Hoje eu estou no meu período fértil, sabe né, posso engravidar, e tô sem camisinha aqui! Vamos sair amanhã, eu passo na farmácia, compro um lubrificante bem legal, e a gente vai pra um lugar mais aconchegante, que tal?” Sim, meus caros, é possível ludibriar um estuprador. Até eu consegui!
terça-feira, 24 de novembro de 2009
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Nossa, eu me lembro de seus olhos de assustada quando nos contou essa história. Ainda bem que heróicamente vc se safou, usando os seus poderes! Uma boa história. Um abraço!
ResponderExcluirItalo
Oi MFN linda, muito inteligente a sua solução para o problema. Se for sair de madrugada me chame que eu te acompanho e daí não tem problema, ok?? :D Beijos :) Clauson
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